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CiberDifusão

José Afonso Furtado

O Pixel e o Papel
Introdução
Livro Electrónico: Ensaio de Definição
Versões Electrónicas e Reconceptualização do Livro no Mundo Digital
Mediação Tecnológica e Remediation
Da Cultura do Impresso à Cultura no Mundo Digital
Conclusão
Referências

Introdução
Os desenvolvimentos espectaculares das novas tecnologias de informação e comunicação na última década e meia provocaram uma diversidade de reflexões e de acesas controvérsias sobre o futuro da edição tal como a tínhamos conhecido e, em particular, sobre o destino do livro impresso, a quem se vaticinou, com persistente regularidade, a morte ou o desaparecimento, substituído que seria por novas formas e técnicas de produção, reprodução e difusão de conteúdos.
Nessa medida, têm vindo a surgir diversas investigações “sobre as formas materiais dos objectos culturais – e, em particular, dos impressos -, a sua vinculação a determinadas convenções no plano da estética, a sua inserção em certos contextos institucionais e a diversidade de modos de apropriação desses objectos por vários tipos de «públicos»” (Nunes, 2002, pp.393-394). Roger Chartier tem sublinhado que, muito embora situações aparentemente semelhantes sejam recorrentes na história do livro e dos meios de comunicação, o momento em que nos encontramos configura uma “revolução” mais radical do que todas as anteriores por abranger, pela primeira vez em simultâneo, um conjunto de mutações que até agora tinham ocorrido em separado. Desse modo, muitas das categorias com que temos lidado, captado, entendido e apropriado a cultura escrita estão a alterar-se: “assistimos a mudanças nas técnicas de reprodução do texto, na forma ou veículo do texto e ainda nas práticas de leitura. Esta situação nunca tinha ocorrido anteriormente. A invenção do códice no Ocidente não modificou os meios de reprodução dos textos ou dos manuscritos. A invenção de Gutenberg não modificou a forma do livro. As revoluções nas práticas de leitura ocorreram no contexto de uma certa estabilidade quer nas técnicas de reprodução dos textos quer na forma e materialidade do objecto. Ora, hoje, estas três revoluções - técnica, morfológica e material – estão perfeitamente interligadas” (Chartier, 2002). Assim, nestes últimos anos, temos vindo a assistir ao aparecimento de livros em versão digital, de editores electrónicos, de livrarias virtuais, de obras de referência e bases de dados textuais online, de obras hipertextuais e de dispositivos de leitura de livros electrónicos.

Definida num sentido aberto, a noção de edição electrónica, ao contrário do que por vezes se faz crer, não é recente, já que pode integrar praticamente todas as edições produzidas sob uma forma que não tenha o papel como base (Warwick, 2003, p.202). Nesse sentido, o e-book é um termo vago utilizado para descrever um texto ou uma monografia disponível sob forma electrónica: “um e-book pode ser um romance publicado num Web site, um novela cujo download pode ser realizado como ficheiro de word processing ou até um diário num extenso e-mail!” (Ormes, 2001). O Projecto Gutenberg tem o seu início em 1971 e, como refere Lynch, há pelo menos vinte anos que estão disponíveis CD-ROMs, disquetes e processos de distribuição de textos electrónicos através de networks para terminais e workstations (Lynch, 2001). E, muito embora os dispositivos de leitura sejam relativamente recentes enquanto verdadeiros produtos comerciais, a ideia do livro electrónico portátil remonta a 1968, quando Alan Kay elaborou o conceito do Dynabook, “um computador pessoal interactivo e portátil, tão acessível como um livro.” (Kay e Goldberg, 1977). Aliás, o trabalho de Kay acabou por ter existência real sob a forma do Apple Newton MessagePad, o primeiro PDA (Personal Digital Assistant), capaz de apresentar títulos electrónicos no formato NewtonBook (chegaram a ser produzidos centenas desses títulos), mas a linha de produto foi interrompida em 1998 devido ao aparecimento no mercado dos PalmPilots e Handspring Visors (Wilson, 2001).

Por outro lado, as tecnologias electrónicas penetraram já em todos os aspectos do processo de publicação: “Os autores escrevem os seus textos em processadores e enviam-nos para os editores via online ou em disquete. Imagens, quadros e gráficos são também quase na sua totalidade criados em computadores. Mesmo que os autores não criem originalmente os seus textos sob formas electrónicas, a grande maioria dos editores digitaliza esses conteúdos para a produção. Editing, layout e outras tarefas de produção ocorrem já online, independentemente do produto final vir a aparecer sob forma impressa ou electrónica”. Em suma, a maior parte dos aspectos e das actividades envolvidas na edição moderna são electrónicos (Borgman, 2000, p.83).
No entanto, só em meados dos anos noventa do século passado, se verifica a grande mediatização em torno dos livros electrónicos, se assiste à entrada em cena das grandes empresas, agora já não só do tradicional universo editorial, mas também do mundo das novas tecnologias, e surgem as mais respeitáveis firmas de estudos de mercado a avançar entusiásticas previsões sobre a emergência de um novo e altamente rendoso mercado para os livros digitais. Esse momento pode ser emblematicamente assinalado pela publicação da novela Riding the Bullet de Stephen King em Março de 2000. A partir daí, multiplicam-se os formatos, meios e canais de distribuição de conteúdos electrónicos, procede-se a alterações na legislação sobre o copyright e tornam-se inevitáveis as mudanças na economia da edição. Mas, cabe perguntar, porquê nesse momento? As razões para isso prendem-se, certamente, com o aparecimento e desenvolvimento da World Wide Web. Antes dela, os serviços da Internet (principalmente o correio electrónico e a simples transferência de ficheiros) lidavam sobretudo com media alfabéticos e, embora fosse possível transmitir gráficos digitais, a maior parte dos utilizadores estava limitado a textos ASCII. E, mesmo no seu início, a Web limitava-se apenas a assegurar comunicação textual (Bolter e Grusin, 1999, p.197). Mas, Marc Andreessen e Eric Bina, que dirigem a equipa Mosaic no National Center for Supercomputing Applications da University of Illinois (NCSA), apresentam cópias beta do Mosaic em Fevereiro de 1993, e a Versão 1.0 a 23 de Abril do mesmo ano. Embora Mosaic não fosse o primeiro browser nem sequer, como tantas vezes se afirma, o primeiro browser a ostentar um graphical user interface (“WorldWideWeb” de Tim Berners-Lee foi o primeiro browser gráfico point-and-click, seguido pelo browser Viola de Pei Wei), para a maioria das pessoas Mosaic era o browser mais fácil de instalar, de usar e de navegar sem esforço na World Wide Web, concebida e desenvolvida por Berners-Lee em 1991 (Delio, 2003). Com os browsers gráficos, em particular com o desenvolvimento do Netscape, e com a generalização da tecnologia dos hyperlinks e do hipertexto, a situação vai alterar-se substancialmente (Bélisle, 2003). Em primeiro lugar, alcança-se uma consistente base de utilizadores, incialmente recrutada entre os académicos e investigadores, e, logo a seguir, entre os tecnologicamente mais letrados; este movimento dará origem à vertiginosa expansão da Internet que hoje conhecemos. Em segundo lugar, era agora possível integrar outros media e apresentar novos e populares géneros (revistas online, news services) ultrapassadas as limitações anteriores (Bolter e Grusin, 1999, p.198).

Não admira portanto que as caracterizações mais elementares da edição electrónica tendam a concentrar-se na distribuição electrónica de conteúdos e que, nos anos mais recentes, o termo livro electrónico ou e-book se tenha visto apropriado pelas empresas que vendem dispositivos electrónicos para apresentação de textos digitais.

Se olharmos apenas para o lado tecnológico, a mudança no sentido da distribuição de conteúdos em rede parece imparável, quer estes sejam destinados ao consumo sob forma electrónica ou a ser impressos «a pedido». Mas, como alerta Mark Bide, a existência de uma infra-estrutura tecnológica não garante por si só uma utilização neste ou naquele sentido nem define deterministicamente o tipo de impacte sobre o sector da edição. É necessário, pois, “olhar para além dos factores tecnológicos de mudança e reconhecer que são as dimensões culturais, sociais e económicas e o modo como elas interagem com as novas tecnologias que vão, na realidade, afectar a edição do futuro” (Bide et al., 2000, p.23). Também Borgman salienta a importância de se olhar para além dos meros factores tecnológicos e refere que “os debates sobre publicação electrónica envolvem a interacção de factores tecnológicos, psicológicos, sociológicos, económicos, políticos e culturais que influenciam o modo como as pesoas criam, usam, procuram e adquirem informação” (Borgman, 2000, pp.83-84).

Para complexificar este cenário, acontece que é demasiado simplista falar de edição como se se tratasse de uma única indústria. Como refere ainda Bide, “existem muitas e diversas indústrias da edição, até agora agrupadas pela sua utilização de um medium comum para a sua disseminação: a impressão em papel.” Mas as regras são diferentes de segmento para segmento, cada um com diferentes modelos de negócio. Mais ainda, à medida que penetrarmos no ambiente de rede, vários aspectos do modo como estabelecemos categorias de editores devem forçosamente começar a mudar, e algumas dessas diferenças não deixam de ser sublinhadas pelo modo e rapidez como os diversos mercados-alvo a que cada tipo de editor se dirige reagem à distribuição electrónica de textos (Bide & Associates, 2000, p.10).

É nesta linha que se vem propondo uma reconcepção da cadeia de valor, reconcepção tornada indispensável pelo novo paradigma da conectividade universal criado pela Internet e pela expansão do digital, pois essa cadeia já não pode apenas centrar-se nos elementos tangíveis que contribuem para a realização de um produto valioso, devendo agora integrar igualmente a cadeia de valor da informação. Essa atitude obriga a ter em atenção diversos elementos-chave que formam o novo processo de valor acrescentado:

• O conteúdo que foi seleccionado para publicação;
• a produção e o processo logístico;
• a agregação relevante de obras;
• o modo como os consumidores podem encontrar a informação que procuram; e,
• qual a autoridade/brand que está a produzir essa informação.

Torna-se assim indispensável que dessa nova cadeia de valor façam parte, entre o autor e o leitor, pontos como a Selecção, o Acesso, a Agregação, o Desenvolvimento, a Navegação e a Autoridade. Poderia dizer-se, com razão, que algumas destas actividades sempre fizeram parte das preocupações das casas editoras. No entanto, se se pensar o modo como o ambiente de rede está a mudar as regras do jogo, facilmente veremos que já não se está a falar exactamente da mesma coisa. A capacidade das redes desconstruirem os tradicionais constrangimentos físicos faz com que, em muitos casos, o inventário se torne agora virtual ou que, por exemplo, a edição seja já de algum modo possível para quase todos, em virtude das barreiras à entrada – isto é, os investimentos exigidos para a produção e distribuição do inventário físico – pura e simplesmente desparecerem. Esse mesmo ambiente permite ainda que os autores ignorem os canais habituais e “publiquem” as suas obras via web o que, podendo diminuir a importância da selecção no início do processo, implica em contrapartida um acréscimo do valor da navegação e da autoridade no final da cadeia (Bide, 2000).

 

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