www.ciberscopio.net José Afonso Furtado O Pixel e o Papel Introdução Definida num sentido aberto, a noção de edição electrónica, ao contrário do que por vezes se faz crer, não é recente, já que pode integrar praticamente todas as edições produzidas sob uma forma que não tenha o papel como base (Warwick, 2003, p.202). Nesse sentido, o e-book é um termo vago utilizado para descrever um texto ou uma monografia disponível sob forma electrónica: “um e-book pode ser um romance publicado num Web site, um novela cujo download pode ser realizado como ficheiro de word processing ou até um diário num extenso e-mail!” (Ormes, 2001). O Projecto Gutenberg tem o seu início em 1971 e, como refere Lynch, há pelo menos vinte anos que estão disponíveis CD-ROMs, disquetes e processos de distribuição de textos electrónicos através de networks para terminais e workstations (Lynch, 2001). E, muito embora os dispositivos de leitura sejam relativamente recentes enquanto verdadeiros produtos comerciais, a ideia do livro electrónico portátil remonta a 1968, quando Alan Kay elaborou o conceito do Dynabook, “um computador pessoal interactivo e portátil, tão acessível como um livro.” (Kay e Goldberg, 1977). Aliás, o trabalho de Kay acabou por ter existência real sob a forma do Apple Newton MessagePad, o primeiro PDA (Personal Digital Assistant), capaz de apresentar títulos electrónicos no formato NewtonBook (chegaram a ser produzidos centenas desses títulos), mas a linha de produto foi interrompida em 1998 devido ao aparecimento no mercado dos PalmPilots e Handspring Visors (Wilson, 2001). Por outro
lado, as tecnologias electrónicas penetraram já em
todos os aspectos do processo de publicação: “Os
autores escrevem os seus textos em processadores e enviam-nos para os
editores via online ou em disquete. Imagens, quadros e gráficos
são também quase na sua totalidade criados em computadores.
Mesmo que os autores não criem originalmente os seus textos sob
formas electrónicas, a grande maioria dos editores digitaliza
esses conteúdos para a produção. Editing, layout
e outras tarefas de produção ocorrem já online,
independentemente do produto final vir a aparecer sob forma impressa
ou electrónica”. Em suma, a maior parte dos aspectos e das
actividades envolvidas na edição moderna são electrónicos
(Borgman, 2000, p.83). Não admira portanto que as caracterizações mais elementares da edição electrónica tendam a concentrar-se na distribuição electrónica de conteúdos e que, nos anos mais recentes, o termo livro electrónico ou e-book se tenha visto apropriado pelas empresas que vendem dispositivos electrónicos para apresentação de textos digitais. Se olharmos apenas para o lado tecnológico, a mudança no sentido da distribuição de conteúdos em rede parece imparável, quer estes sejam destinados ao consumo sob forma electrónica ou a ser impressos «a pedido». Mas, como alerta Mark Bide, a existência de uma infra-estrutura tecnológica não garante por si só uma utilização neste ou naquele sentido nem define deterministicamente o tipo de impacte sobre o sector da edição. É necessário, pois, “olhar para além dos factores tecnológicos de mudança e reconhecer que são as dimensões culturais, sociais e económicas e o modo como elas interagem com as novas tecnologias que vão, na realidade, afectar a edição do futuro” (Bide et al., 2000, p.23). Também Borgman salienta a importância de se olhar para além dos meros factores tecnológicos e refere que “os debates sobre publicação electrónica envolvem a interacção de factores tecnológicos, psicológicos, sociológicos, económicos, políticos e culturais que influenciam o modo como as pesoas criam, usam, procuram e adquirem informação” (Borgman, 2000, pp.83-84). Para complexificar este cenário, acontece que é demasiado simplista falar de edição como se se tratasse de uma única indústria. Como refere ainda Bide, “existem muitas e diversas indústrias da edição, até agora agrupadas pela sua utilização de um medium comum para a sua disseminação: a impressão em papel.” Mas as regras são diferentes de segmento para segmento, cada um com diferentes modelos de negócio. Mais ainda, à medida que penetrarmos no ambiente de rede, vários aspectos do modo como estabelecemos categorias de editores devem forçosamente começar a mudar, e algumas dessas diferenças não deixam de ser sublinhadas pelo modo e rapidez como os diversos mercados-alvo a que cada tipo de editor se dirige reagem à distribuição electrónica de textos (Bide & Associates, 2000, p.10). É nesta linha que se vem propondo uma reconcepção da cadeia de valor, reconcepção tornada indispensável pelo novo paradigma da conectividade universal criado pela Internet e pela expansão do digital, pois essa cadeia já não pode apenas centrar-se nos elementos tangíveis que contribuem para a realização de um produto valioso, devendo agora integrar igualmente a cadeia de valor da informação. Essa atitude obriga a ter em atenção diversos elementos-chave que formam o novo processo de valor acrescentado: •
O conteúdo que foi seleccionado para publicação; Torna-se assim indispensável que dessa nova cadeia de valor façam parte, entre o autor e o leitor, pontos como a Selecção, o Acesso, a Agregação, o Desenvolvimento, a Navegação e a Autoridade. Poderia dizer-se, com razão, que algumas destas actividades sempre fizeram parte das preocupações das casas editoras. No entanto, se se pensar o modo como o ambiente de rede está a mudar as regras do jogo, facilmente veremos que já não se está a falar exactamente da mesma coisa. A capacidade das redes desconstruirem os tradicionais constrangimentos físicos faz com que, em muitos casos, o inventário se torne agora virtual ou que, por exemplo, a edição seja já de algum modo possível para quase todos, em virtude das barreiras à entrada – isto é, os investimentos exigidos para a produção e distribuição do inventário físico – pura e simplesmente desparecerem. Esse mesmo ambiente permite ainda que os autores ignorem os canais habituais e “publiquem” as suas obras via web o que, podendo diminuir a importância da selecção no início do processo, implica em contrapartida um acréscimo do valor da navegação e da autoridade no final da cadeia (Bide, 2000).
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