www.ciberscopio.net José Afonso Furtado O Pixel e o Papel Da Cultura do Impresso à Cultura no Mundo Digital Novas temporalidades Na verdade, a temporalidade dos novos media, ao contrário do caso da leitura de livros, é baseada numa paroxística aceleração da velocidade. Nesse sentido, Joël de Rosnay chama a atenção para que “a intrusão do mundo virtual produz uma nova aceleração. A desmaterialização, a fluidez e a densidade das trocas criam um efeito de autocatálise: tudo se passa agora cada vez mais depressa.” E, introduzindo uma distinção entre dois tipos de tempo, o tempo longo (feito de sequências temporais que se seguem linearmente umas às outras; é o tempo da infância, da vida profissional, das férias, da reforma, mas também o tempo fraccionado em semanas, em horas, em minutos, tudo o que podemos separar em unidades temporais com a única necessidade de continuar sincronizados com o tempo social) e o tempo curto, caracteriza este como “uma sucessão de instantes em que cada um é um flash acompanhado de prazer. É o tempo mediático do zapping, do replay, do surfing, tanto do agrado dos jovens. Estas intrusões do flash de informação, do clip musical, do spot de publicidade nas nossas vidas armadilham-nos e contribuem muitas vezes para a poluição do nosso espírito.” Por isso, faz duas propostas: a primeira, consiste em, “face aos excessos da velocidade, conservar a possibilidade de reintroduzirmos nas nossas actividades a lentidão, a perenidade, em saber dar tempo ao tempo para nos construirmos passo a passo e poder assim conferir sentido às nossas acções”; a segunda passa por acrescentar àquelas duas noções clássicas de tempo a noção de tempo largo. Se as duas primeiras traduzem uma experiência vivida, o tempo largo implica a noção de um capital-tempo acumulado, de um tempo potencial. Uma biblioteca, artigos arquivados, instrumentos de memorização da informação, motores de pesquisa na Net, o atendedor de chamadas, tudo isto são ferramentas que contribuem para constituir um capital-tempo destinado a produzir intesses temporais. Esses interesses podem ser reinvestidos, por exemplo, na realização de novos projectos. Um dos segredos da gestão da sobre-informação gerada pela velocidade de acesso aos media, passa pela constituição de um capital-tempo que permita recuperar espaços de tempo, respirações, silêncios que podem voltar a dar sentido á nossa existência.” (Rosnay, 2001, p.7). Luc Bonneville refere-se a que, para os utilizadores da Internet, o tempo é percebido antes do mais no quadro de um “momento presente" constantemente actualizado. De facto, “a velocidade necessária para a realização de uma actividade em linha assenta num tempo quantitativamente diferente do tempo moderno, baseado nos intervalos perceptíveis entre momentos.” Ora, “este tempo subjectivizado, vivido, implica (...) uma valorização excessiva do momento presente, doravante concebido independentemente do momento passado e do futuro.” (Vidal, 2002; Bonneville, 2000). Para Gervais (2003), o valor supremo, no nosso contexto cultural, é a velocidade e, consequentemente, a progressão através do texto. Ora, “esta importância crescente conferida à progressão faz-se em detrimento da compreensão que, ela, requer sempre tempo. Com uma leitura cada vez mais rápida, a compreensão reduz-se às suas formas mais simples, resume-se a uma compreensão superficial, sobredeterminada por aproximações e ilusões cognitivas.” Nízia Villaça, sustentando-se em Chartier, escreve que “um dos grandes equívocos das obras que tratam da história do livro e da leitura é não fazer uma distinção entre a leitura da necessidade e a leitura apaixonada. Para a primeira, o texto eletrônico e todas as suas vantagens são muito apropriadas, por eliminarem barreiras de tempo, espaço e seleção, proporcionando rapidez e barateamento do acesso às obras. A leitura de fruição, no entanto, se completa no contato corporal com o livro. Não é uma maratona contra o tempo, mas uma tentativa de suspender a temporalidade, percorrendo meandros e experimentando profundidade.” E enfatiza que, “devido a uma pressão psicológica, o leitor de suportes eletrônicos tende a transmitir para o ato de decodificação a velocidade do meio, transformando-se no que Guimarães Rosa definiu como leitor cavalo, que come apressadamente tudo sem tempo para ruminar.” (Villaça, 2003). A questão
da memória Mutações na escrita e no texto? A oposição entre visão e audição veio a gerar uma outra oposição entre os produtos típicos de uma e de outra. Ou seja entre os seus respectivos símbolos. Na época de Lessing e de Diderot, esses símbolos eram a pintura e a poesia. Hoje, outros se impuseram, mais adaptados aos tempos e aos requisitos da cultura de massas globalizada. Por exemplo, a visão alfabética tem como terreno privilegiado de aplicação a escrita e, em geral, os textos. A visão não-alfabética encontra o seu terreno na televisão, nos objectos que ela apresenta e na enorme variedade das manifestações da voz, do som e de todos os instrumentos que os veiculam – um fenómeno que teve um desenvolvimento explosivo nos últimos vinte anos e que não se encontra ainda completamente classificado. A mudança de símbolos, sublinha Simone, não se trata de um episódio marginal. É em conjunto causa e efeito de uma mudança mais profunda no modo de adquirir o conhecimento que se verificou nos últimos dois decénios do século XX – uma passagem inadvertida mas radical de uma modalidade sensorial a outra: “a questão é esta: no final do século XX passámos gradualmente de um estado em que o conhecimento evoluído se adquiria sobretudo através do livro e da escrita (isto é, através do olhar e da visão alfabética ou, se preferirem, através da inteligência sequencial), para um estado em que o conhecimento se adquire antes – e para alguns sobretudo – através da audição (isto é do ouvido) ou da visão não-alfabética (que é uma modalidade específica do olhar), ou seja, através da inteligência simultânea. Por isso, passámos de uma modalidade de conhecimento em que prevalecia a linearidade para uma em que prevalece a simultaneidade dos estímulos e da elaboração.” (Simone, 2000, pp.20-21). Não é fácil descobrir completamente as razões desta mudança. Certamente que o enorme aumento dos estímulos auditivos e a cultura da audição que estimulou tornaram menos relevante as visões alfabéticas e o seu suporte típico, o texto. É um facto que o alfabeto e as suas principais materializações físicas, o texto e o livro, deixaram gradualmente de ser o terreno privilegiado a que se aplica a acção do olhar e começaram a perder terreno. Este retrocesso pode ocasionar novas condições individuais, pois o olhar do homem finissecular poderá vir a ser incapaz de ler ou, mais geralmente, de se sair bem perante um texto escrito. O homem renuncia então “à conquista da visão alfabética no momento em que, com o crescimento desmesurado da informação mediada pelo ouvido e pela visão não-alfabética, teve a sensação de dispor de fontes de conhecimento igualmente ricas. Terá assim renunciado a uma conquista evolutiva que a escrita tinha estimulado para dar um passo atrás. É quase como se se deixasse de parte a visão alfabética – um medium pleno de tensões e de «fadiga» – para voltar a media mais naturais, mais primitivos, de menor grau de tratamento. O que significa talvez que existe uma hierarquia da «natureza» na utilização das diversas vias de aquisição do conhecimento. O exercício da visão alfabética é não só mais avançado como exige maior empenho e é mais trabalhoso do que do que o do ouvido e da visão não-alfabética.” (Simone, 2000, pp.25-27). Contudo, Vandendorpe acredita que, mesmo que novas formas de cultura estejam a emergir, é duvidoso que o homem de amanhã esteja pronto a renunciar aos trunfos próprios do texto. Com efeito, a escrita tira partido do formidável poder de tratamento semiótico da visão. Contudo, ao integrar na esfera sinmbólica um número cada vez mais considerável de actividades humanas, o computador poderá atrofiar estas características da escrita, favorecendo também o estabelecimento de uma nova relação com o texto. Como a imediação das trocas tende a fazer crer a quem escreve que o seu destinatário partilha já os dados contextuais em que ele próprio se encontra integrado, o domínio da escrita será cada vez mais difícil e os riscos de equívocos mais numerosos. No plano semiótico, a capacidade de o computador manipular imagens vai sem dúvida aumentar o seu peso nas trocas e observa-se já uma tendência para conceder um lugar cada vez mais importante às imagens, ícones e emoticons. Por outro lado, a “nova ordem hipertabular tenderá a favorecer a memória de curto prazo contra a memória de longo prazo, e a encorajar mais a fluidez e a multiplicidade dos contextos abertos a acontecimentos de sentido do que a saturação reiterada e obsessiva de um mesmo contexto.” A escrita teve sobretudo como efeito acentuar o processo de individuação. Com a memória total disponibilizada pelo computador e pelo novo ambiente criado pelas tecnologias de comunicação, as possibilidades de diferenciação cultural do indivíduo já não se jogam apenas numa escala vertical e temporal, ligando o presente ao passado, mas irão alargar-se cada vez mais a toda a superfície do planeta, num jogo de exploração espacial e transcultural permanente. No plano dos comportamentos sociais, “o computador vai acentuar nos utilizadores uma tendência para a adopção de identidades múltiplas e fluidas.” (Vandendorpe, 2001a). A “desverbalização” e novos géneros
icono-textuais A estabilidade, o fixo e o fluido David Levy, nesse sentido, refere que, à medida que as tecnologias digitais se insinuam em praticamente todos os pontos do mundo em que os documentos funcionam, se verificam mudanças que estão a desestabilizar as instituições e práticas que dependem da estabilidade dos documentos, bem como as instituições e práticas que contribuem para a estabilidade dos documentos. Quando Bolter (1991, p.31) escrevia que o texto electrónico era “o primeiro texto em que os elementos de sentido, de estrutura e de apresentação visual são fundamentalmente instáveis”, que “o computador não requer que qualquer dos aspectos da escrita seja antecipadamente determinado para toda a vida do texto”, ou que “a inclinação natural da escrita em computador é mudar, crescer e finalmente desaparecer”, para Levy o que ele não entende é que os documentos em papel e, na verdade, todos os documentos, são estáticos e mutáveis, fixos e fluidos. E não compreende igualmente a importância da fixidez no mundo digital. O facto de, neste momento, os materiais digitais serem muito pouco permanentes é cada vez mais encarado como um problema. Na verdade, “o sucesso de qualquer género, ou de uma determinada instância de qualquer género, está ligado ao padrão ou ritmo de fixidez e de fluidez: qual a informação que se mantém fixa, quando pode ser alterada e por quem. E diferentes géneros apresentarão, naturalmente, diferentes ritmos.” O que escapa então ao argumento da “morte-da-fixidez” é o sentido da estabilidade comunicativa. Essa capacidade para fixar a fala, para garantir a sua repetibilidade, encontra-se na base da cultura humana (Levy, 2001, pp.36-37). Borges (2002, p.27), refere que a fluidez do documento electrónico é revelador de uma resistência ao seu reconhecimento como tal, mas “o facto da palavra «documento» ter vindo recentemente a indicar uma classe mais alargada de artefactos comunicativos não significa que só agora lidamos com documentos versáteis, facilmente manipuláveis, isto é, reutilizáveis, já que esta característica de reutilização não é exclusiva do meio electrónico, ela é inerente a qualquer documento que sofra uma alteração.” Também John Seely Brown e Paul Duguid vão no mesmo sentido. Para eles, “as opiniões opostas sobre a fixidez dos documentos e a fluidez da informação provocam uma tensão que é inerente aos documentos convencionais e que, de um modo academicamente adequado, o sociólogo francês Bruno Latour designa de “immutable mobiles”. Assim, uma das características dos documentos é a sua mobilidade, a sua capacidade de circular, ao contrário, por exemplo, das paredes das cavernas em que a humanidade deixou as suas marcas muito antes do aparecimento do papel. A outra, é a sua imutabilidade. Temos a expectativa de que o livro se mova sem alterações de modo a que, quando chegar ao leitor, seja o mesmo do que quando saiu do editor.” Ora, estas duas características tendem a entrechocar-se. A argila, a cera e o papel eram mais portáteis mas também mais mutáveis do que as paredes das cavernas. O papel e a tinta conseguiram um equilíbrio muito útil: “suficientemente leves para serem portáteis, mas suficientemente fixos para serem imutáveis.” A impressão manteve esse equilíbrio. Já o telégrafo, a rádio e o telefone se posicionaram contra a imutabilidade. Também o mundo digital vai contra a imutabilidade, acrescentando ainda uma camada suplementar de confusão, pois, por outro lado, os documentos digitais também se assemelham aos documentos em papel. No entanto, com o digital, enquanto o transporte e a mobilidade são aumentadas, a imutabilidade diminui. Alguns documentos, como páginas Web, estão constantemente a mudar. Na Web, pode ser muito difícil saber o que possa significar a expressão “o mesmo documento”. Refira-se, a este propósito, a importância do problema da perenidade, no sentido da localização fiável de um documento ao longo do tempo: “a identificação exacta de um documento foi sempre um elemento importante na actividade de criação, de comercialização e de troca na ligação entre o criador da informação e o seu utilizador, mas os identificadores usados até ao momento que identificam de um modo inequívoco a unidade a que se referem, foram concebidos para outro tipo de documento entendido como unidade física (...) e não se adequam às necessidades actuais.” (Borges, 2002, p.35). Alguns ensaistas argumentam que, ao fim e ao cabo, o antigo equilíbrio acabou, e que a fixidez deu lugar à fluidez. Ora, para Brown e Duguid, apesar das vantagens da fluidez, não devemos esquecer que a fixidez continua a ter os seus atractivos. A fixidez exerce um papel crítico no poder dos jornais. O facto de ler o mesmo texto provoca um sentido de comunidade. E por isso, o jornal personalizado não funciona do mesmo modo que o jornal convencional. Não liga as pessoas entre si. De facto, um mundo de entretenimento e de notícias personalizado torna muito difícil encontrar um denominador comum (Brown e Duguid, 2000, pp.197-198). Existem assim justificadas razões culturais para que nos preocupemos com a ênfase na fluidez em detrimento da fixidez. A fixidez serve outros propósitos: “enquadra a informação.” O modo como um escritor e um editor apresentam fisicamente a informação, apoiando-se em recursos exteriores à própria informação, faz chegar ao leitor muito mais do que apenas a informação. Trata-se da questão fulcral do contexto. E, para Brown e Duguid, “o contexto não propõe às pessoas apenas o que ler, diz-lhes como ler, onde ler, qual o seu significado, qual o seu valor e porque é que isso é relevante.” Ao fim e ao cabo, os livros e os documentos em papel estabeleceram um precioso precedente não só para o design dos documentos mas para o design das tecnologias de informação em geral. Num tempo de abundante e mesmo sobreabundante informação não tratada, eles sugerem que o melhor caminho para criar documentos sociais (e comunidades sociais) não é o desmesurado crescimento da informação e cada vez mais representação, mas abandonar cada vez mais informação não representada ou sub-representada. A comunicação eficiente não consiste na quantidade do que pode ser dito, mas no grau do que pode ser deixado por dizer – e mesmo por ler - em background. E uma certa dose de fixidez, quer no que se refere aos documentos materiais quer às convenções sociais de interpretação, contribui em muito para esta eficiência (Brown e Duguid, 2000, p.205). A credibilidade e institucionalização
em meio digital Gervais refere que a Internet aparece como uma heterotopia, como uma utopia realizada. Mas essa maior liberdade conferida ao indivíduo, que pode difundir os textos que entender na Internet, tem como contrapartida uma grande precaridade institucional. A Internet escapa aos mecanismos e dispositivos tradicionais de institucionalização dos textos. Nada garante a autoridade, e mesmo a autenticidade, do que aparece na Web. Ninguém assegura à partida a seriedade ou a qualidade do que foi difundido. O texto da Internet está em plena construção. E se alguma coisa pode ser dada como adquirida isso talvez ainda se deva às instituições da economia do livro que migraram para a rede, levando consigo o seu capital simbólico (Gervais, 2003). Talvez isso contribua para que João Arriscado Nunes, na sequência de um conjunto de investigações que tem levado a efeito, considere que um aspecto especialmente interessante é o da centralidade do impresso como “forma de existência por excelência do texto científico que inscreve um conhecimento autorizado e validado, apesar da expansão do recurso a suportes electrónicos, nomeadamente para difusão mais ampla do que começa por aparecer em suporte impresso – e apesar de algumas tentativas de introduzir a prática do peer review na publicação electrónica.” Também no caso da literatura, e “apesar de algumas tentativas de assimilar o texto em suporte impresso ao texto em suporte electrónico, a qualidade de «literário» de um dado texto parece estar estreitamente vinculada ao suporte impresso. O livro, enquanto objecto impresso, aparece como a forma quase «natural» de existência dos textos que são classificados, pelos especialistas, como «literários». As formas electrónicas de existência dos textos literários são vistas, nesta perspectiva, seja como um recurso para alargar a difusão de um texto que, no essencial, foi definido e fixados na(s) sua(s) versões impressas (ou para facilitar o trabalho dos especialistas de teoria, crítica e história literária sobre o próprio texto), seja como uma ameaça à existência e à integridade de obras que encontram no suporte impresso a sua forma «natural» de existência física.” (Nunes (2002, pp.395-397). Na verdade, o livro, como o impresso por excelência, vocacionado para a permanência, para a leitura atenta e repetida, encontra-se intimamente associado à literatura. Vandendorpe (2002) refere que esta associação entre a literatura e o livro advém do facto de, historicamente, a literatura ter sido a nossa mestra de leitura. Ela tornou a leitura “uma actividade que encontra em si a sua própria finalidade, autotélica.” Desse modo, a literatura ensinou-nos também a ler a ficção. Ora, o romance exige da parte do leitor um empenhamento na “durée”. Portanto, “quem aprendeu a ler através de romances acaba por colocar a leitura do livro sob o signo do contínuo. A perenidade deste modelo foi assegurada pela Escola e pela instituição literária, que unem num mesmo culto o amor pelo livro, pela leitura e pela literatura. Não é portanto excessivo afirmar que o romance exige um pacto de leitura particular, que assegura ao leitor um máximo de gratificação e de efeitos de sentido se a narrativa for lida na sua totalidade, seguindo o texto palavra a palavra.” A resiliência do papel Questões em torno da «convergência» Ao invés, quando se exerce sobre um texto digital, ela é quase obrigatoriamente definida pelo clicar do rato sobre as ligações hipertextuais, e a estrutura fragmentada do texto e a posição rígida de leitura imposta pelo medium convidam a saltar rapidamente de um ponto para outro. Estes constrangimentos são perfeitamente convenientes para uma leitura orientada para a acção ou para a pesquisa; mas são completamente desadequadas para a leitura de fundo, que consiste em acolher em si um pensamento novo e complexo ou a mergulhar num universo romanesco. Se a isto acrescentarmos o facto de, para seduzir o leitor, o texto se tornar cintilante, recorrendo a cores, a ícones, a imagens, a leitura tende a ser deportada para a ordem do espectáculo.” (Vandendorpe, 2001b). Essa «deportação» pode ser ainda mais complexa pois, como refere Jéhanno (2000, pp.105-106), pode tornar o modelo económico do livro digital dependente dos modelos aplicados nas práticas culturais de massa, como na música e no cinema. Jéhanno que acrescenta que, como no universo do digital as fronteiras entre livros, filmes ou discos tendem a abolir-se, fundindo-se num oceano binário de zeros e uns, é razoável imaginar a curto prazo “um sistema de subscrição digital multicultural, fornecendo o acesso através da Web aos diversos conteúdos mediante um pagamento regular.” E acrescenta que “essa mistura de conteúdos deixa pouca margem de manobra a produtores de conteúdos culturais como os editores de livros, mesmo que digitais.” Livros que assim acabarão por se integrar no universo da indústria do entretenimento, podendo vir a encontrar-se submetidos aos interesses de Hollywood ou dos grandes grupos multimedia. O acesso É isso que leva Joel de Rosnay a considerar que se podem estar a criar “novas formas de exclusão, que não estão apenas ligadas a aspectos financeiros ou de concentração de poder (...), mas também a uma capacidade de abstracção, de pensar em termos de ícones, de clicar em menus, de «surfar» nos hiperlinks, de saltar de um site para outro; isso exige uma nova espécie de agilidade mental e capacidade de abstracção em rede virtual...” (Rosnay, 1996). Como escreve, a propósito, Juanals, “naturalmente que as vantagens das bases de dados hipermedia em termos de modos de armazenamento, de organização e de acesso ao corpus, em comparação com as versões impressas são inegáveis: multiplicação dos pontos de acesso no corpus, automatização das ligações, utilização de filtros semânticos, cruzamento de critérios (opções de pesquisa avançadas), utilização de operadores booleanos para efectuar pesquisas multicritérios, imediatez e possibilidades de refinamento dos resultados. (...) Mas se a possibilidade de automatização das ligações calculadas e geradas pelo software torna possível o acesso em todos os pontos a imensas bases de dados, isso acontece, no entanto, “em detrimento de um ambiente semântico que o leitor se vai ver forçado e reconstruir. Mais ainda, estas técnicas estavam até agora reservadas a utilizações e a públicos profissionais e a sua disponibilização em obras destinadas ao grande público faz com que surjam os problemas referentes à sua utilização adequada e eficaz.” (Juanals, 2001). Dimensões
sociais da mudança “Passam, de facto, de relações de identidade articuladas em função de um centro, que assegura permanência e irradiação, para relações agora ostentadas em função de uma periferia e das trocas entre as culturas. A tradição, como princípio cultural, implica uma certa estabilidade, um cânone literário, por exemplo, que vem confirmar uma comunidade na sua história, nos seus modos de agir e nos seus hábitos, na sua identidade. A tradução, como princípio, implica transformações aceleradas, relações múltiplas que acabam por servir de princípio identitário. A tradição não exclui as influências, as traduções e as trocas, mas nela a tendência para a reterritorialização é preponderante. Como princípio identitário, a tradução favorece a desterritorialização, a deslocação para o outro. O movimento é pois mais centrífugo do que centrípeto (Gervais, 2003). Encontramo-nos assim face a alguns dos temas que Bauman, por exemplo, tem vindo a teorizar sob a designação de “modernidade líquida", particularmente no que se refere a uma reconstrução dos vínculos comunitários através de novas “comunidades de escolha”, em que as pessoas se movem livremente. São “comunidades instantâneas para o consumo instantâneo”, “comunidades de não pertença” e totalmente descartáveis depois de usadas. Compreende-se então que Bauman chame a atenção para o facto de “a situação presente diferir em vários aspectos decisivos da que correspondia à clássica forma do livro e, em especial, do romance.” E acrescenta: “julgo que um desses aspectos é particularmente relevante para este problema. Refiro-me à imagem de marca do nosso tempo, a fragmentação da vida em séries de episódios relativamente fechados a par da percepção do fluxo temporal como uma sucessão de acontecimentos também relativamente circunscritos.” E conclui afirmando que “deste entrelaçamento do mundo fragmentado e das vidas fragmentadas provém o maior desafio para o livro e para a leitura.” (Bauman, 2000).
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