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CiberDifusão

José Afonso Furtado

O Pixel e o Papel
Introdução
Livro Electrónico: Ensaio de Definição
Versões Electrónicas e Reconceptualização do Livro no Mundo Digital
Mediação Tecnológica e Remediation
Da Cultura do Impresso à Cultura no Mundo Digital
Conclusão
Referências

Da Cultura do Impresso à Cultura no Mundo Digital
Tentemos então recensear as implicações sociais, culturais, económicas e políticas das dinâmicas ligadas à “informacionalização da sociedade” (Nunes, 2002, p.394), designadamente os eventuais escolhos nessa “passagem” entre o impresso e o digital, as dificuldades levantadas pela manipulação das novas formas de textos e a sua “ilegibilidade mediológica” (Gervais, 2003).

Novas temporalidades
Para Ferrieri, qualquer mutação cultural é antes de mais uma reclassificação da temporalidade: “a temporalidade linear e sequencial (mas em certos casos também circular) do livro” parece ceder agora o passo à “temporalidade ziguezagueante da simultaneidade multimédia; o «tempo real» dos computadores, o eterno presente da TV, anulam aquele curto circuito entre passado e futuro que é uma das características típicas da cultura do livro.” E acrescenta que “simultaneidade quer também dizer fazer muitas coisas simultaneamente: os novos media estão programados para isso. A fruição desatenta que Benjamin indicava como característica do cinema e que Adorno detestava, é agora o protocolo típico da utilização dos média...” (Ferrieri, 1998, p.133-135).

Na verdade, a temporalidade dos novos media, ao contrário do caso da leitura de livros, é baseada numa paroxística aceleração da velocidade. Nesse sentido, Joël de Rosnay chama a atenção para que “a intrusão do mundo virtual produz uma nova aceleração. A desmaterialização, a fluidez e a densidade das trocas criam um efeito de autocatálise: tudo se passa agora cada vez mais depressa.” E, introduzindo uma distinção entre dois tipos de tempo, o tempo longo (feito de sequências temporais que se seguem linearmente umas às outras; é o tempo da infância, da vida profissional, das férias, da reforma, mas também o tempo fraccionado em semanas, em horas, em minutos, tudo o que podemos separar em unidades temporais com a única necessidade de continuar sincronizados com o tempo social) e o tempo curto, caracteriza este como “uma sucessão de instantes em que cada um é um flash acompanhado de prazer. É o tempo mediático do zapping, do replay, do surfing, tanto do agrado dos jovens. Estas intrusões do flash de informação, do clip musical, do spot de publicidade nas nossas vidas armadilham-nos e contribuem muitas vezes para a poluição do nosso espírito.” Por isso, faz duas propostas: a primeira, consiste em, “face aos excessos da velocidade, conservar a possibilidade de reintroduzirmos nas nossas actividades a lentidão, a perenidade, em saber dar tempo ao tempo para nos construirmos passo a passo e poder assim conferir sentido às nossas acções”; a segunda passa por acrescentar àquelas duas noções clássicas de tempo a noção de tempo largo. Se as duas primeiras traduzem uma experiência vivida, o tempo largo implica a noção de um capital-tempo acumulado, de um tempo potencial. Uma biblioteca, artigos arquivados, instrumentos de memorização da informação, motores de pesquisa na Net, o atendedor de chamadas, tudo isto são ferramentas que contribuem para constituir um capital-tempo destinado a produzir intesses temporais. Esses interesses podem ser reinvestidos, por exemplo, na realização de novos projectos. Um dos segredos da gestão da sobre-informação gerada pela velocidade de acesso aos media, passa pela constituição de um capital-tempo que permita recuperar espaços de tempo, respirações, silêncios que podem voltar a dar sentido á nossa existência.” (Rosnay, 2001, p.7). Luc Bonneville refere-se a que, para os utilizadores da Internet, o tempo é percebido antes do mais no quadro de um “momento presente" constantemente actualizado. De facto, “a velocidade necessária para a realização de uma actividade em linha assenta num tempo quantitativamente diferente do tempo moderno, baseado nos intervalos perceptíveis entre momentos.” Ora, “este tempo subjectivizado, vivido, implica (...) uma valorização excessiva do momento presente, doravante concebido independentemente do momento passado e do futuro.” (Vidal, 2002; Bonneville, 2000). Para Gervais (2003), o valor supremo, no nosso contexto cultural, é a velocidade e, consequentemente, a progressão através do texto. Ora, “esta importância crescente conferida à progressão faz-se em detrimento da compreensão que, ela, requer sempre tempo. Com uma leitura cada vez mais rápida, a compreensão reduz-se às suas formas mais simples, resume-se a uma compreensão superficial, sobredeterminada por aproximações e ilusões cognitivas.” Nízia Villaça, sustentando-se em Chartier, escreve que “um dos grandes equívocos das obras que tratam da história do livro e da leitura é não fazer uma distinção entre a leitura da necessidade e a leitura apaixonada. Para a primeira, o texto eletrônico e todas as suas vantagens são muito apropriadas, por eliminarem barreiras de tempo, espaço e seleção, proporcionando rapidez e barateamento do acesso às obras. A leitura de fruição, no entanto, se completa no contato corporal com o livro. Não é uma maratona contra o tempo, mas uma tentativa de suspender a temporalidade, percorrendo meandros e experimentando profundidade.” E enfatiza que, “devido a uma pressão psicológica, o leitor de suportes eletrônicos tende a transmitir para o ato de decodificação a velocidade do meio, transformando-se no que Guimarães Rosa definiu como leitor cavalo, que come apressadamente tudo sem tempo para ruminar.” (Villaça, 2003).

A questão da memória
Este diagnóstico não pode deixar de se entrelaçar com o problema da memória. Sobre esta questão são bem conhecidas as posições de Steiner, que considera que “as memórias alimentadas e cultivadas em comum mantêm uma sociedade naturalmente em contacto com o seu próprio passado. Mais ainda, a memória salvaguarda o núcleo da individualidade. O que se encontra guardado pela recordação e é susceptível de ser rememorado constitui o lastro da identidade singular” (Steiner, 1989, p.21). Por isso é levado a reconhecer amargamente que “a atrofia da memória é o traço central da nossa educação e cultura nos meados e final do século XX” e a alimentar a visão de “escolas de escrita creativa”, em que uma das tarefas decisivas consistiria em despertar as forças adormecidas da memória (Steiner, 1996, p.15 e p.18). Christian Vandendorpe pensa que não está em perigo a memória natural, que é antes de mais a capacidade de reconhecer um elemento já visto e relacioná-lo com um contexto significativo, e que se trata de uma função inerente ao ser vivo e indispensável à sua preservação. O que as novas tecnologias estão prestes a deslocar definitivamente é uma cultura em que se valorizava a capacidade de restituir integralmente e sem ajuda exterior dados de que se tinha conhecimento, fossem uma história, uma série de fórmulas, uma imagem, etc. E acrescenta que “a partir do momento em que suportes externos podem armazenar as informações que nos interessam e restituí-las a pedido, pode parecer inútil atafulhar o nosso espírito. Ao libertar o cérebro humano da necessidade de registar duradouramente informações, confere-se-lhe a possibilidade de consagrar os seus recursos a outras tarefas.” Mas, por outro lado, um homem sem memória é o sonho de uma sociedade de consumo, pois “o fluxo das modas pode então suceder-se sem interrupção e o murmúrio mercantil pode ocupar todo o espaço. Os electrões que cintilam na superfície dos nossos écrãs e desaparecem num fluxo perpétuo, não têm memória. Neste sentido, são os vectores ideiais de uma sociedade a-histórica ou, o que acaba por ser o mesmo, de uma sociedade que aspira a transformar o tempo em simples mercadoria (...) Temos já um vislumbre dessa sociedade ideal de consumo nos grupos de jovens e adolescentes cuja ausência de memória pessoal torna perfeitamente maleáveis aos imperativos da moda e do consumo de massa.” A este respeito, deve notar-se que a perda da memória cultural característica de uma sociedade do instante presente é perfeitamente compatível com a enorme quantidade de arquivos secundários criados quotidianamente e cuja produção é mais acelerada do que a dos arquivos primários. Nem, aliás, com a progressão vertiginosa da quantidade de textos disponíveis. A acessibilidade, que é uma virtude no sistema capitalista, tem como contrapartida um fluxo quase incontrolável de textos. Para Gervais (2003), este dilúvio comunicacional altera de um modo importante a nossa relação com o texto. Este deixou de ser um objecto raro, tornou-se uma ameaça. Ora, a manipulação, em situação de sobreabundância começa, de facto, por ser uma não manipulação. Implica proceder a uma selecção. É preciso aprender a esquecer texto, a desenvolver estratégias de esquecimento, estratégias inteligentes capazes de suscitar um esquecimento judicioso. No entanto, Vandendorpe refere que, apesar das ameaças sobre a vida privada, a memória informática não deixa de nos fascinar, e por diversas razões: “em primeiro lugar, por ser acessível de qualquer sítio, o que liberta o utilizador das limitações inerentes a uma localização espacial. Para além desta ubiquidade, a possibilidade de acesso instantâneo e a sua dimensão potencialmente ilimitada transformam-na no receptáculo ideal do saber humano. Por fim, é indexável e pesquisável de modo sofisticado, o que lhe valeu ser promovida de depósito a «assistente pessoal». Perante isto, a memória material, limitada e inerte do livro não tem condições para poder competir. (...) Com as novas tecnologias do livro em plena explosão, pode dizer-se que uma página da história da humanidade está prestes a virar-se debaixo do nosso olhar” (Vandendorpe, 2001a). Posto o que, mesmo assim, é difícil prever as consequências do novo paradigma informático. Os trabalhos de antropologia mostram-nos que uma mudança na nossa relação com os signos tem repercussões profundas sobre a relação com a memória e com o modo de pensar, bem como sobre a organização social.

Mutações na escrita e no texto?
Mas será que o computador vai levar ainda mais longe a revolução da escrita ou, pelo contrário, implicar uma regressão? Alguns autores apontam neste sentido. Raffaele Simone considera que se desenvolveu uma oposição entre “dois tipos de inteligência (ou melhor, entre dois modos de a inteligência trabalhar: a simultânea e a sequencial. A primeira trabalha sobre dados simultâneos e, por assim dizer, sinópticos (como os estímulos visuais, que se apresentam em grande número simultaneamente e entre os quais é difícil estabelecer uma ordem) e desse modo ignora o tempo; a segunda, pelo contrário, trabalha sobre a sucessão dos estímulos, dispondo-os linearmente, analisando-os e articulando-os. Diversas investigações levam a pensar que a inteligência sequencial é mais evoluída do que a simultânea (Simone, 2000, p.17). Depois da escrita, a gama dos recursos disponíveis para adquirir conhecimento evoluído pode descrever-se do seguinte modo: “o homem está equipado: a) com a audição linear, na medida em que pode escutar sons dispostos em sucessão; b) com a visão não-alfabética, enquanto pode ver objectos em geral. Esta visão caracteriza-se pelo facto de não ser linear (recorde-se a observação de Herder, para quem «a vista apresenta tudo perante nós de um só golpe), ou seja, de não estar constrangida a seguir, no seu movimento, uma sucessão ordenada; c) por fim, com a visão alfabética, que permite ver aqueles objectos específicos que são as escritas, decifrando os seus valores fonéticos (cabendo-lhe identificar o modo «como se pronunciam») e ao mesmo tempo captando os seus significados. Ora, as escritas são normalmente o suporte dos textos verbais, cuja propriedade fundamental consiste em estarem dispostos naquela sucessão específica a que os linguistas chamam precisamente linearidade. Nisto, a percepção segue a própria natureza dos textos: tal como o texto se desenvolve linearmente, também a visão que o percepciona deve ser adestrada para operar num sentido linear.” (Idem, pp.18-19). Para Simone, o nascimento da visão alfabética constitui um enriquecimento fundamental da ordem dos sentidos, e aumenta com um instrumento formidável (a inteligência sequencial) o equipamento cognoscitivo do homem moderno.

A oposição entre visão e audição veio a gerar uma outra oposição entre os produtos típicos de uma e de outra. Ou seja entre os seus respectivos símbolos. Na época de Lessing e de Diderot, esses símbolos eram a pintura e a poesia. Hoje, outros se impuseram, mais adaptados aos tempos e aos requisitos da cultura de massas globalizada. Por exemplo, a visão alfabética tem como terreno privilegiado de aplicação a escrita e, em geral, os textos. A visão não-alfabética encontra o seu terreno na televisão, nos objectos que ela apresenta e na enorme variedade das manifestações da voz, do som e de todos os instrumentos que os veiculam – um fenómeno que teve um desenvolvimento explosivo nos últimos vinte anos e que não se encontra ainda completamente classificado. A mudança de símbolos, sublinha Simone, não se trata de um episódio marginal. É em conjunto causa e efeito de uma mudança mais profunda no modo de adquirir o conhecimento que se verificou nos últimos dois decénios do século XX – uma passagem inadvertida mas radical de uma modalidade sensorial a outra: “a questão é esta: no final do século XX passámos gradualmente de um estado em que o conhecimento evoluído se adquiria sobretudo através do livro e da escrita (isto é, através do olhar e da visão alfabética ou, se preferirem, através da inteligência sequencial), para um estado em que o conhecimento se adquire antes – e para alguns sobretudo – através da audição (isto é do ouvido) ou da visão não-alfabética (que é uma modalidade específica do olhar), ou seja, através da inteligência simultânea. Por isso, passámos de uma modalidade de conhecimento em que prevalecia a linearidade para uma em que prevalece a simultaneidade dos estímulos e da elaboração.” (Simone, 2000, pp.20-21). Não é fácil descobrir completamente as razões desta mudança. Certamente que o enorme aumento dos estímulos auditivos e a cultura da audição que estimulou tornaram menos relevante as visões alfabéticas e o seu suporte típico, o texto. É um facto que o alfabeto e as suas principais materializações físicas, o texto e o livro, deixaram gradualmente de ser o terreno privilegiado a que se aplica a acção do olhar e começaram a perder terreno. Este retrocesso pode ocasionar novas condições individuais, pois o olhar do homem finissecular poderá vir a ser incapaz de ler ou, mais geralmente, de se sair bem perante um texto escrito. O homem renuncia então “à conquista da visão alfabética no momento em que, com o crescimento desmesurado da informação mediada pelo ouvido e pela visão não-alfabética, teve a sensação de dispor de fontes de conhecimento igualmente ricas. Terá assim renunciado a uma conquista evolutiva que a escrita tinha estimulado para dar um passo atrás. É quase como se se deixasse de parte a visão alfabética – um medium pleno de tensões e de «fadiga» – para voltar a media mais naturais, mais primitivos, de menor grau de tratamento. O que significa talvez que existe uma hierarquia da «natureza» na utilização das diversas vias de aquisição do conhecimento. O exercício da visão alfabética é não só mais avançado como exige maior empenho e é mais trabalhoso do que do que o do ouvido e da visão não-alfabética.” (Simone, 2000, pp.25-27).

Contudo, Vandendorpe acredita que, mesmo que novas formas de cultura estejam a emergir, é duvidoso que o homem de amanhã esteja pronto a renunciar aos trunfos próprios do texto. Com efeito, a escrita tira partido do formidável poder de tratamento semiótico da visão. Contudo, ao integrar na esfera sinmbólica um número cada vez mais considerável de actividades humanas, o computador poderá atrofiar estas características da escrita, favorecendo também o estabelecimento de uma nova relação com o texto. Como a imediação das trocas tende a fazer crer a quem escreve que o seu destinatário partilha já os dados contextuais em que ele próprio se encontra integrado, o domínio da escrita será cada vez mais difícil e os riscos de equívocos mais numerosos. No plano semiótico, a capacidade de o computador manipular imagens vai sem dúvida aumentar o seu peso nas trocas e observa-se já uma tendência para conceder um lugar cada vez mais importante às imagens, ícones e emoticons. Por outro lado, a “nova ordem hipertabular tenderá a favorecer a memória de curto prazo contra a memória de longo prazo, e a encorajar mais a fluidez e a multiplicidade dos contextos abertos a acontecimentos de sentido do que a saturação reiterada e obsessiva de um mesmo contexto.” A escrita teve sobretudo como efeito acentuar o processo de individuação. Com a memória total disponibilizada pelo computador e pelo novo ambiente criado pelas tecnologias de comunicação, as possibilidades de diferenciação cultural do indivíduo já não se jogam apenas numa escala vertical e temporal, ligando o presente ao passado, mas irão alargar-se cada vez mais a toda a superfície do planeta, num jogo de exploração espacial e transcultural permanente. No plano dos comportamentos sociais, “o computador vai acentuar nos utilizadores uma tendência para a adopção de identidades múltiplas e fluidas.” (Vandendorpe, 2001a).

A “desverbalização” e novos géneros icono-textuais
Também Robert Coover chama a atenção, enfaticamente, para uma tendência a que chama «desverbalização» dos textos electrónicos. E acrescenta que esse facto tem como contrapartida que a palavra, “a própria matéria da literatura e de todo o pensamento humano, cede progressivamente o terreno ao image-surfing, ao hipermedia, ao ícone linkado” (Coover, 2000). Assiste-se, de facto, a um cada vez maior complexidade do dado textual, ao seu carácter essencialmente híbrido. O texto partilha crescentemente o seu espaço com componentes não textuais, como imagens e todas as formas de hipo-ícones, sequências de animação, som e funções informáticas. A Internet permite o desenvolvimento de géneros icono-textuais em que as aproximações entre as duas formas se realizam sob a forma de transposição, de junção ou de fusão intermediais. Estas relações apontam para um dado complexo e multiforme que coloca importantes desafios à conceptualização e à descrição. A digitalização do dado textual e icónico generaliza de algum modo essas relações, que anteriormente se encontravam remetidas para práticas artísticas específicas. Ela transformou-as no próprio material das nossas práticas de leitura, que por isso devem aprender a manipular não só textos desmaterializados, num contexto de sobreprodução, mas ainda produções icono-textuais inéditas e sempre mais complexas (Gervais, 2003). Para alguns autores, esta constatação provoca o receio do triunfo da cultura dos média centrados na imagem e da comunicação electrónica sobre a palavra impressa. Esta questão vai a par com uma outra, a que se refere Chartier, e que passa, no fundo, pela própria noção tradicional de «livro», que a textualidade electrónica põe em questão.

A estabilidade, o fixo e o fluido
Na verdade, no mundo digital, “todos os textos, sejam eles quais forem, são dados a ler num mesmo suporte (o écrã de um computador) e nas mesmas formas. Cria-se assim um continuum que já não diferencia os diversos géneros ou repertórios textuais, doravante semelhantes na sua aparência e equivalentes na sua autoridade. Daí a inquietação do nosso tempo confrontado com o desaparecimento dos critérios antigos que permitiam distinguir, classificar e hierarquizar os discursos.” (Chartier, 2001). Também Carla Hesse chama a atenção para que, no mundo da World Wide Web, alcançámos um poder sem precedentes para aceder a quantidades maciças de textos, imagens e sons de todo o género, “mas os pontos de origem destes materiais são incertos; as fronteiras que delimitavam textos ou grupos de textos tornaram-se porosas e infinitamente maleáveis. A possibilidade de uma miscigenação e promiscuidade textual sem limites é encarada com sentimentos tanto de terror como de júbilo libertador.” (Hesse, 1997, pp.112-113).

David Levy, nesse sentido, refere que, à medida que as tecnologias digitais se insinuam em praticamente todos os pontos do mundo em que os documentos funcionam, se verificam mudanças que estão a desestabilizar as instituições e práticas que dependem da estabilidade dos documentos, bem como as instituições e práticas que contribuem para a estabilidade dos documentos. Quando Bolter (1991, p.31) escrevia que o texto electrónico era “o primeiro texto em que os elementos de sentido, de estrutura e de apresentação visual são fundamentalmente instáveis”, que “o computador não requer que qualquer dos aspectos da escrita seja antecipadamente determinado para toda a vida do texto”, ou que “a inclinação natural da escrita em computador é mudar, crescer e finalmente desaparecer”, para Levy o que ele não entende é que os documentos em papel e, na verdade, todos os documentos, são estáticos e mutáveis, fixos e fluidos. E não compreende igualmente a importância da fixidez no mundo digital. O facto de, neste momento, os materiais digitais serem muito pouco permanentes é cada vez mais encarado como um problema. Na verdade, “o sucesso de qualquer género, ou de uma determinada instância de qualquer género, está ligado ao padrão ou ritmo de fixidez e de fluidez: qual a informação que se mantém fixa, quando pode ser alterada e por quem. E diferentes géneros apresentarão, naturalmente, diferentes ritmos.” O que escapa então ao argumento da “morte-da-fixidez” é o sentido da estabilidade comunicativa. Essa capacidade para fixar a fala, para garantir a sua repetibilidade, encontra-se na base da cultura humana (Levy, 2001, pp.36-37). Borges (2002, p.27), refere que a fluidez do documento electrónico é revelador de uma resistência ao seu reconhecimento como tal, mas “o facto da palavra «documento» ter vindo recentemente a indicar uma classe mais alargada de artefactos comunicativos não significa que só agora lidamos com documentos versáteis, facilmente manipuláveis, isto é, reutilizáveis, já que esta característica de reutilização não é exclusiva do meio electrónico, ela é inerente a qualquer documento que sofra uma alteração.” Também John Seely Brown e Paul Duguid vão no mesmo sentido. Para eles, “as opiniões opostas sobre a fixidez dos documentos e a fluidez da informação provocam uma tensão que é inerente aos documentos convencionais e que, de um modo academicamente adequado, o sociólogo francês Bruno Latour designa de “immutable mobiles”. Assim, uma das características dos documentos é a sua mobilidade, a sua capacidade de circular, ao contrário, por exemplo, das paredes das cavernas em que a humanidade deixou as suas marcas muito antes do aparecimento do papel. A outra, é a sua imutabilidade. Temos a expectativa de que o livro se mova sem alterações de modo a que, quando chegar ao leitor, seja o mesmo do que quando saiu do editor.” Ora, estas duas características tendem a entrechocar-se. A argila, a cera e o papel eram mais portáteis mas também mais mutáveis do que as paredes das cavernas. O papel e a tinta conseguiram um equilíbrio muito útil: “suficientemente leves para serem portáteis, mas suficientemente fixos para serem imutáveis.” A impressão manteve esse equilíbrio. Já o telégrafo, a rádio e o telefone se posicionaram contra a imutabilidade. Também o mundo digital vai contra a imutabilidade, acrescentando ainda uma camada suplementar de confusão, pois, por outro lado, os documentos digitais também se assemelham aos documentos em papel. No entanto, com o digital, enquanto o transporte e a mobilidade são aumentadas, a imutabilidade diminui. Alguns documentos, como páginas Web, estão constantemente a mudar. Na Web, pode ser muito difícil saber o que possa significar a expressão “o mesmo documento”. Refira-se, a este propósito, a importância do problema da perenidade, no sentido da localização fiável de um documento ao longo do tempo: “a identificação exacta de um documento foi sempre um elemento importante na actividade de criação, de comercialização e de troca na ligação entre o criador da informação e o seu utilizador, mas os identificadores usados até ao momento que identificam de um modo inequívoco a unidade a que se referem, foram concebidos para outro tipo de documento entendido como unidade física (...) e não se adequam às necessidades actuais.” (Borges, 2002, p.35). Alguns ensaistas argumentam que, ao fim e ao cabo, o antigo equilíbrio acabou, e que a fixidez deu lugar à fluidez. Ora, para Brown e Duguid, apesar das vantagens da fluidez, não devemos esquecer que a fixidez continua a ter os seus atractivos. A fixidez exerce um papel crítico no poder dos jornais. O facto de ler o mesmo texto provoca um sentido de comunidade. E por isso, o jornal personalizado não funciona do mesmo modo que o jornal convencional. Não liga as pessoas entre si. De facto, um mundo de entretenimento e de notícias personalizado torna muito difícil encontrar um denominador comum (Brown e Duguid, 2000, pp.197-198). Existem assim justificadas razões culturais para que nos preocupemos com a ênfase na fluidez em detrimento da fixidez. A fixidez serve outros propósitos: “enquadra a informação.” O modo como um escritor e um editor apresentam fisicamente a informação, apoiando-se em recursos exteriores à própria informação, faz chegar ao leitor muito mais do que apenas a informação. Trata-se da questão fulcral do contexto. E, para Brown e Duguid, “o contexto não propõe às pessoas apenas o que ler, diz-lhes como ler, onde ler, qual o seu significado, qual o seu valor e porque é que isso é relevante.” Ao fim e ao cabo, os livros e os documentos em papel estabeleceram um precioso precedente não só para o design dos documentos mas para o design das tecnologias de informação em geral. Num tempo de abundante e mesmo sobreabundante informação não tratada, eles sugerem que o melhor caminho para criar documentos sociais (e comunidades sociais) não é o desmesurado crescimento da informação e cada vez mais representação, mas abandonar cada vez mais informação não representada ou sub-representada. A comunicação eficiente não consiste na quantidade do que pode ser dito, mas no grau do que pode ser deixado por dizer – e mesmo por ler - em background. E uma certa dose de fixidez, quer no que se refere aos documentos materiais quer às convenções sociais de interpretação, contribui em muito para esta eficiência (Brown e Duguid, 2000, p.205).

A credibilidade e institucionalização em meio digital
Não é igualmente possível ignorar questões como as da confiança, credibilidade e qualidade que, sendo gerais no novo ambiente digital, são particularmente candentes no mundo da edição. Como diz Levi (2001, p.171), a indústria moderna da edição pode ser pensada como um mecanismo cultural para assegurar a credibilidade de certos géneros. Talvez neste momento o maior desafio para o sistema tradicional de edição não provenha da evolução de géneros ou da disponibilidade de novo hardware, mas da potencial transformação do próprio processo de publicação.

Gervais refere que a Internet aparece como uma heterotopia, como uma utopia realizada. Mas essa maior liberdade conferida ao indivíduo, que pode difundir os textos que entender na Internet, tem como contrapartida uma grande precaridade institucional. A Internet escapa aos mecanismos e dispositivos tradicionais de institucionalização dos textos. Nada garante a autoridade, e mesmo a autenticidade, do que aparece na Web. Ninguém assegura à partida a seriedade ou a qualidade do que foi difundido. O texto da Internet está em plena construção. E se alguma coisa pode ser dada como adquirida isso talvez ainda se deva às instituições da economia do livro que migraram para a rede, levando consigo o seu capital simbólico (Gervais, 2003).

Talvez isso contribua para que João Arriscado Nunes, na sequência de um conjunto de investigações que tem levado a efeito, considere que um aspecto especialmente interessante é o da centralidade do impresso como “forma de existência por excelência do texto científico que inscreve um conhecimento autorizado e validado, apesar da expansão do recurso a suportes electrónicos, nomeadamente para difusão mais ampla do que começa por aparecer em suporte impresso – e apesar de algumas tentativas de introduzir a prática do peer review na publicação electrónica.”

Também no caso da literatura, e “apesar de algumas tentativas de assimilar o texto em suporte impresso ao texto em suporte electrónico, a qualidade de «literário» de um dado texto parece estar estreitamente vinculada ao suporte impresso. O livro, enquanto objecto impresso, aparece como a forma quase «natural» de existência dos textos que são classificados, pelos especialistas, como «literários». As formas electrónicas de existência dos textos literários são vistas, nesta perspectiva, seja como um recurso para alargar a difusão de um texto que, no essencial, foi definido e fixados na(s) sua(s) versões impressas (ou para facilitar o trabalho dos especialistas de teoria, crítica e história literária sobre o próprio texto), seja como uma ameaça à existência e à integridade de obras que encontram no suporte impresso a sua forma «natural» de existência física.” (Nunes (2002, pp.395-397).

Na verdade, o livro, como o impresso por excelência, vocacionado para a permanência, para a leitura atenta e repetida, encontra-se intimamente associado à literatura. Vandendorpe (2002) refere que esta associação entre a literatura e o livro advém do facto de, historicamente, a literatura ter sido a nossa mestra de leitura.

Ela tornou a leitura “uma actividade que encontra em si a sua própria finalidade, autotélica.” Desse modo, a literatura ensinou-nos também a ler a ficção. Ora, o romance exige da parte do leitor um empenhamento na “durée”. Portanto, “quem aprendeu a ler através de romances acaba por colocar a leitura do livro sob o signo do contínuo. A perenidade deste modelo foi assegurada pela Escola e pela instituição literária, que unem num mesmo culto o amor pelo livro, pela leitura e pela literatura. Não é portanto excessivo afirmar que o romance exige um pacto de leitura particular, que assegura ao leitor um máximo de gratificação e de efeitos de sentido se a narrativa for lida na sua totalidade, seguindo o texto palavra a palavra.”

A resiliência do papel
Sellen e Harper, no seu estudo sobre o “paperless office”, analisam a resistência do papel, designadamente comparando as suas características físicas com as potencialidades das técnicas digitais. Começando por analisar a leitura no mundo real (em vez de tentar pressupor à partida as propriedades da leitura), reconheceram alguns aspectos usualmente pouco referidos, entre eles a significativa quantidade de tempo empregue a ler no local de trabalho ou o modo como a leitura envolve frequentemente também uma actividade de anotação e de escrita. Ao reflectirem sobre o modo como o papel serve de apoio à leitura, chegam à conclusão de que a interacção humana com as funcionalidades de uma máquina computacional é categoricamente diferente da a interacção com um livro impresso. A partir daí, utilizam o conceito de “affordances”, que não são funcionalidades, dos documentos: “«affordance» refere-se ao facto de as propriedades físicas de um objecto tornarem possível diferentes funções para a pessoa que sente ou usa esse objecto. Por outras palavras, as propriedades dos objectos determinam as possibilidades de acção.” Segue-se um trabalho de referenciação das affordances dos documentos em suporte papel e das alternativas digitais aos documentos impressos. Identificam assim quatro affordances básicas dos documentos impressos em situações de trabalho: em primeiro lugar, a tangibilidade, que corresponde ao facto de, ao lermos um livro, termos a experiência do texto usando tanto os nossos olhos como as nossa mãos. “Quando um documento é em papel, podemos ver a sua dimensão, manusear as páginas para calcular o seu tamanho, podemos dobrar o canto de uma página enquanto procuramos outra secção do texto.” Em segundo lugar, a flexibilidade espacial: “os documentos em suporte papel permitem ao leitor interagir com mais do que um texto simultaneamente. Vários documentos podem ser dispostos de um modo muito próximo numa mesa de trabalho.” Em terceiro lugar, a posibilidade de ser usado à nossa medida (tailorability): “é fácil para os leitores de um livro impresso anotar e acrescentar apontamentos.” Por fim, a manipulabilidade: “muitas vezes os leitores escrevem um documento à medida que lêem. Utilizando o papel, as pessoas movem-se sem dificuldade entre o documentos que estão a ler e o que estão a escrever.” (Sellen e Harper, 2002, pp.101-103). Do mesmo modo, referenciam cinco affordances básicas das alternativas digitais aos documentos impressos, focando principalmente o caso dos desktop PCs e dos dispositivos dedicados de leitura. Desde logo, o armazenamento e acesso a grandes quantidades de informação. “Independentemente da forma, quase todos os dispositivos e-book podem transportar mais do que um livro e o conteúdo extra não aumenta o peso do dispositivo.” Mas também, a apresentação de documentos multimedia: “em geral, os dispositivos e-book possibilitam novas formas de ver conteúdos multimedia.” A pesquisa rápida «full-text»: “a pesquisa por palavras-chave possibilita aos leitores encontrar rapidamente informação específica em documentos de grande dimensão.” As ligações rápidas para materiais relacionados: “links embutidos permitem saltos instantâneos para outro material no documento que está a ser lido, para outro documento no e-book ou para um Web site.” Por fim, a modificação dinâmica ou actualização do conteúdo: “é facil para autores e leitores anotar, marcar, alterar, e aumentar a capacidade de um e-book. A distinção entre o autor e o leitor pode tornar-se menos nítida à medida que textos em mutação são partilhados entre comunidades de autores e de leitores.” (Idem, pp.147-149). Ao reflectir sobre algumas das questões que o design das novas tecnologias pode levantar aos modos de leitura, os autores salientam que existem excelentes razões para que as pessoas queiram utilizar computadores ou e-books para ler. Mas também se verifica que, como um e outro não conseguem oferecer algumas das affordances do papel, essas razões não são suficientemente fortes em muitas tarefas de leitura. A título de exemplo (importante, pois as questõs da corporalidade na interacção com a leitura raramente são verdadeiramente desenvolvidas), referem que a navegação num documento em papel é uma experiência directa de utilização das mãos que recorre a um conjunto de pistas tácteis e visuais. Ora, navegar num desktop PC é uma situação bem diferente, pois o típico interface da máquina impõe três sérios constrangimentos: o input é indirecto (via rato ou teclado); o input é (em grande medida) dependente de uma só mão; tanto o input como o feedback se socorrem principalmente de pistas visuais. O mesmo se poderia analisar a propósito de problemas contextuais, como a percepção da localização no interior de um documento ou a perda da memória espacial em ambientes de leitura digital. E concluem que a maior parte destes aspectos poderão ser aperfeiçoados desde que “as tecnologias de leitura incorporem as mais importantes affordances que o papel oferece correntemente.” Ou seja, é bem claro para os autores que “a estratégia correcta é a emulação do papel.” (Idem, pp.149-163). Finalmente, Sellen e Harper sublinham ainda que a sua investigação não defende que os meios electrónicos são incapazes de ter uma função nas futuras actividades de leitura, bem longe disso. O que ela mostra é que, para determinados tipos de tarefas de leitura, as tecnologias electrónicas correntes não oferecem uma alternativa ao papel que seja pelo menos tão boa como o papel. Vale a pena referir as suas conclusões. Por um lado, se o design dos instrumentos digitais for incrementado (especialmente a partir das potencialidades do papel), estes poderão eventualmente vir a suportar as actividades dos trabalhadores do conhecimento muito melhor do que o fazem actualmente. Mas, até lá, o papel continuará a manter a sua importância e continuará a predominar nas actividades que involvem trabalho de conhecimento, incluindo navegar através da informação, ler para compreender o sentido da informação, organização, estruturação e mecanismos de chamada de atenção para ideias a lembrar, integração de informação de apoio à preparação de uma apresentação e actividades que envolvem mostrar e demonstrar ideias e acções a outros (marcação de documentos, entrega pessoal, apresentação colaborativa e discussão em encontros face a face). Por outro lado, as tecnologias digitais encarregar-se-ão cada vez mais das actividades para que os media electrónicos estão mais talhados: “pesquisa em larga escala e recuperação de informação e documentos; mensagens curtas em comunicações internas/externas; análises de dados; produção e finalização de documentos; processamento de dados referentes a negócios e a transacções; disseminação e transmissão de documentos em grande escala; e elevada capacidade de armazenamento a longo prazo de documentos. As tecnologias digitais também predominarão na produção e distribuição de novos tipos de media, tais como documentos não lineares e pesquisáveis (dicionários, manuais de referência, enciclopédias), e géneros multimedia (vídeos, música e conteúdo multimedia interactivo).” Refira-se, por fim, que os autores sublinham que estas mudanças não significam o desparecimento do papel no local de trabalho, antes implicam algumas alterações fundamentais na sua função (Sellen e Harper, 2002, p.207).

Questões em torno da «convergência»
Ainda reflectindo sobre a questão da convergência, Vandendorpe afirma que “o computador, ao disponibilizar através de um único écrã livros, música e vídeos, tende a homogeneizar o estatuto das diferentes artes, pois tudo se encontra afinal submetido às mesmas manipulações. Ferrieri (1998, p.IX), sublinha que é inegável que “a ideologia multimedia tem uma componente assimilatória e leva frequentemente à instauração de uma substancial monomedialidade em vez de conduzir a uma verdadeira polifonia de vozes e culturas diferentes.” Os efeitos desta convergência sobre o estatuto da actividade de leitura são já evidentes. Esta, tal como a conhecemos no mundo físico do impresso, é por excelência uma actividade privada, com ritmos inconstantes e incertos, tanto rápida como lenta e meditativa.

Ao invés, quando se exerce sobre um texto digital, ela é quase obrigatoriamente definida pelo clicar do rato sobre as ligações hipertextuais, e a estrutura fragmentada do texto e a posição rígida de leitura imposta pelo medium convidam a saltar rapidamente de um ponto para outro. Estes constrangimentos são perfeitamente convenientes para uma leitura orientada para a acção ou para a pesquisa; mas são completamente desadequadas para a leitura de fundo, que consiste em acolher em si um pensamento novo e complexo ou a mergulhar num universo romanesco. Se a isto acrescentarmos o facto de, para seduzir o leitor, o texto se tornar cintilante, recorrendo a cores, a ícones, a imagens, a leitura tende a ser deportada para a ordem do espectáculo.” (Vandendorpe, 2001b). Essa «deportação» pode ser ainda mais complexa pois, como refere Jéhanno (2000, pp.105-106), pode tornar o modelo económico do livro digital dependente dos modelos aplicados nas práticas culturais de massa, como na música e no cinema. Jéhanno que acrescenta que, como no universo do digital as fronteiras entre livros, filmes ou discos tendem a abolir-se, fundindo-se num oceano binário de zeros e uns, é razoável imaginar a curto prazo “um sistema de subscrição digital multicultural, fornecendo o acesso através da Web aos diversos conteúdos mediante um pagamento regular.” E acrescenta que “essa mistura de conteúdos deixa pouca margem de manobra a produtores de conteúdos culturais como os editores de livros, mesmo que digitais.” Livros que assim acabarão por se integrar no universo da indústria do entretenimento, podendo vir a encontrar-se submetidos aos interesses de Hollywood ou dos grandes grupos multimedia.

O acesso
Se é certo que o surto da edição electrónica tem potencialidades para introduzir novas modalidades para o enquadramento e comunicação do conhecimento, para a sua construção colectiva através do intercâmbio do saber, da especialização e da compreensão, por outro lado a revolução electrónica pode agravar, e não diminuir, as desigualdades. É perfeitamente possível que nos deparemos com um novo tipo de literacia, que já não se caracteriza pelas competências de ler e escrever, mas pela facilidade de acesso e capacidade de manipulação dos média digitais pelos quais a escrita é agora também transmitida (Chartier, 2000). E é sabido como a conservação e o acesso ao saber constituem questões fundamentais da chamada sociedade de informação tal como neste momento a conhecemos.

É isso que leva Joel de Rosnay a considerar que se podem estar a criar “novas formas de exclusão, que não estão apenas ligadas a aspectos financeiros ou de concentração de poder (...), mas também a uma capacidade de abstracção, de pensar em termos de ícones, de clicar em menus, de «surfar» nos hiperlinks, de saltar de um site para outro; isso exige uma nova espécie de agilidade mental e capacidade de abstracção em rede virtual...” (Rosnay, 1996). Como escreve, a propósito, Juanals, “naturalmente que as vantagens das bases de dados hipermedia em termos de modos de armazenamento, de organização e de acesso ao corpus, em comparação com as versões impressas são inegáveis: multiplicação dos pontos de acesso no corpus, automatização das ligações, utilização de filtros semânticos, cruzamento de critérios (opções de pesquisa avançadas), utilização de operadores booleanos para efectuar pesquisas multicritérios, imediatez e possibilidades de refinamento dos resultados.

(...) Mas se a possibilidade de automatização das ligações calculadas e geradas pelo software torna possível o acesso em todos os pontos a imensas bases de dados, isso acontece, no entanto, “em detrimento de um ambiente semântico que o leitor se vai ver forçado e reconstruir. Mais ainda, estas técnicas estavam até agora reservadas a utilizações e a públicos profissionais e a sua disponibilização em obras destinadas ao grande público faz com que surjam os problemas referentes à sua utilização adequada e eficaz.” (Juanals, 2001).

Dimensões sociais da mudança
Estas mudanças não derivam naturalmente de um determinismo do hardware e do software, e por isso teremos muito provavelmente que aceitar que a palavra impressa faz parte de uma ordem em plena reconfiguração. E isto porque, como refere Zygmunt Bauman, “o destino do livro no nosso mundo globalizante não depende, e não pode ser explicado apenas pelas tecnologias, mesmo que sendo tecnologias de impressão, ou por outros factores confinados ao mundo da edição. Os livros partilham a sorte das sociedades de que fazem parte e, quando nos preocupamos com o destino dos livros e da leitura, devemos olhar mais de perto para a sociedade e para as suas tendências.” (Bauman, 2000). Se o fizermos, veremos que a actual diversidade das práticas de leitura e das experiências do texto se inscrevem num contexto cultural e tecnológico fundamentalmente novo, num contexto que Bertrand Gervais qualifica como de sobreextensão cultural. A ideia de uma sobreextensão cultural é uma consequência lógica da distinção entre leitura intensiva e extensiva, que tem origem nos trabalhos dos historiadores das práticas de leitura e da sua tradução em termos de contextos culturais e de práticas de leitura. O nosso contexto de sobreextensão cultural é “marcado pela heterogeneidade dos textos lidos, não apenas pela diversidade dos géneros e dos media utilizados, mas também pelas culturas implicadas. É um contexto de consumo rápido dos bens culturais, o que o próprio termo de navegação exprime de modo tão preciso como metafórico. A tendência, num contexto como esse, é para a aceleração. Os textos são lidos sem grande investimento, em trajectos rápidos; e, salvo raras excepções, são imediatamente abandonados logo que uma primeira apropriação foi efectuada. Estes textos não fazem parte de um cânone pré-estabelecido, são escolhidos sem grande motivação prévia. Lê-se o que nos aparece à frente ou o que surge no ecrã pela simples pressão dos dedos. A sobreextensão cultural favorece um deslocamento para a periferia de uma cultura, para as traduções, para a mistura dos géneros e das formas, para a introdução de novas tecnologias e de novos lugares de comunicação.” (Gervais, 2003). É marcada por uma informatização da cultura e da literatura, pela digitalização dos dados textuais que favorece os fenómenos de co-presença do texto e da imagem, assim como uma maior tabularidade dos dados textuais tanto no plano visual como funcional (Vandendorpe 1999, 41-50). Mas tem também como consequência, prossegue Gervais, o aparecimento de um novo suporte de textos, que altera as próprias bases da textualidade ao modificar substancialmente as suas relações coma a linearidade do texto. Na verdade, na hipertextualidade, “a linearidade já não é um limite, um dado fundamental em sequer um constrangimento de que podemos tentar libertar-nos; tornou-se uma qualidade acidental. É uma propriedade que se pode tentar recuperar a fim de, entre outras coisas, manter intactas as possibilidades de contar histórias, de garantir discursos coerentes e organizados que requerem sempre, apesar de tudo, uma certa forma de linearidade. O nosso contexto de sobreextensão cultural encontra-se marcado pelo écrã, sem lhe ser redutível. A dimensão tecnológica, se bem que preponderante,não é senão um factor entre outros de uma transformação cultural de maior envergadura. De facto, se essa transformação ocorre, isso deve-se à convergência de duas tendências, em que uma alimenta a outra. A primeira, corresponde ao aparecimento de novas tecnologias de armazenamento e de transmisão de textos; a segunda, a modificações na própria estruturação das relações culturais e identitárias.” E Gervais esclarece melhor estas últimas, fundamentais para compreender o pano de fundo das nossas práticas de leitura. Para este autor, as relações culturais e identitárias estão a passar de uma lógica da tradição para uma lógica da tradução.

“Passam, de facto, de relações de identidade articuladas em função de um centro, que assegura permanência e irradiação, para relações agora ostentadas em função de uma periferia e das trocas entre as culturas. A tradição, como princípio cultural, implica uma certa estabilidade, um cânone literário, por exemplo, que vem confirmar uma comunidade na sua história, nos seus modos de agir e nos seus hábitos, na sua identidade. A tradução, como princípio, implica transformações aceleradas, relações múltiplas que acabam por servir de princípio identitário. A tradição não exclui as influências, as traduções e as trocas, mas nela a tendência para a reterritorialização é preponderante. Como princípio identitário, a tradução favorece a desterritorialização, a deslocação para o outro. O movimento é pois mais centrífugo do que centrípeto (Gervais, 2003).

Encontramo-nos assim face a alguns dos temas que Bauman, por exemplo, tem vindo a teorizar sob a designação de “modernidade líquida", particularmente no que se refere a uma reconstrução dos vínculos comunitários através de novas “comunidades de escolha”, em que as pessoas se movem livremente. São “comunidades instantâneas para o consumo instantâneo”, “comunidades de não pertença” e totalmente descartáveis depois de usadas. Compreende-se então que Bauman chame a atenção para o facto de “a situação presente diferir em vários aspectos decisivos da que correspondia à clássica forma do livro e, em especial, do romance.” E acrescenta: “julgo que um desses aspectos é particularmente relevante para este problema.

Refiro-me à imagem de marca do nosso tempo, a fragmentação da vida em séries de episódios relativamente fechados a par da percepção do fluxo temporal como uma sucessão de acontecimentos também relativamente circunscritos.” E conclui afirmando que “deste entrelaçamento do mundo fragmentado e das vidas fragmentadas provém o maior desafio para o livro e para a leitura.” (Bauman, 2000).

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